Onde está o teu irmão

O Evangelho de hoje (Lc 16, 19-31) nos apresenta uma parábola própria de Lucas. Se a parábola do filho pródigo é a parábola da misericórdia, esta é a parábola da justiça, derivada dessa misericórdia. Porém, antes de entrarmos propriamente ma meditação deste Evangelho, gostaria de partilhar três pontos importantes da Doutrina Católica presentes nesse relato:

·         Jesus hoje desmente os que afirmam que os mortos estão dormindo. Para nós, cristãos, que sabemos que “nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39 ), afirmar que os mortos em Cristo ficam dormindo é desconhecer o poder da ressurreição de Nosso Senhor. Muito pelo contrário, como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23).

·         Não existe reencarnação. Por mais que os filmes, as novelas e a internet digam o contrário. Os mortos não podem voltar para se comunicarem com os vivos. O cristão deve viver orientado pela Palavra de Deus e não pela doutrina dos mortos! Morto não tem doutrina, morto não volta, morto não se comunica com os vivos! Além do mais, os judeus não pensavam que os espíritos se comunicassem com os vivos. Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite, não que apareça aos vivos como um espírito desencarnado. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”! Quem salva o homem é Jesus Cristo, não o próprio homem que vai pagando as suas faltas, cada vez que reencarna. Quem tem fé em Cristo e assume Seu projeto rejeita o espiritismo e a doutrina de reencarnação.

·         Jesus deixou claro que o céu e o inferno são por toda a eternidade. Na parábola, aparece literalmente que “há um grande abismo” entre um e outro! Assim, cuidemos bem de viver unidos ao Senhor nesta única vida que temos, pois “está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juíz.”( Hb 9, 27).

Voltando ao Evangelho, já o primeiro versículo me atraiu fortemente - “havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo e que todos os dias se banqueteava e se regalava” (Lc 16,19) - e fico com ele. Os espanhóis deram até um nome ao homem rico, Epulón; vem de epula, do latim, que significa banquete. Epulón significaria o mesmo que comilão. Penso que esse nome faz jus ao que nos diz o relato evangélico: “se banqueteava e se regalava”. Imagino-o sentado à mesa, servido por várias pessoas e comendo somente aquilo que ele gostava, preparado da melhor maneira possível e com um requinte quase inimaginável. Ademais, sempre vestido segundo a última moda da época, “de púrpura e linho finíssimo”. Este é um homem que não soube tirar o proveito dos seus bens. Ao invés de ganhar com eles o Céu, perdeu-o para sempre.

Do outro lado está o mendigo Lazaro [=Eleazar, Deus ajudou]. A descrição da vida do infortunado mendigo era totalmente realista. O esquecimento dos homens, a doença de suas chagas, a sua morte inglória, os cães como companhia e consolo, tudo está conforme ao que inclusive atualmente observamos nas ruas de nossas cidades.

Essa parábola tem fortes contrastes: grande abundância num, extrema necessidade no outro. O homem rico não está contra Deus nem oprime o pobre! Apenas está cego para as necessidades alheias. O seu pecado foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ter feito feliz com um pouco menos de egoísmo e um pouco mais de despreocupação pelas suas próprias coisas. Não utilizou os bens conforme o querer de Deus. Não soube compartilhar. Santo Agostinho comenta: “Não foi a pobreza que conduziu Lázaro ao Céu, mas a sua humildade; nem foram as riquezas que impediram o rico de entrar no descanso eterno, mas o seu egoísmo e a sua infidelidade.”

Exorta São Paulo em 1 Tm 6, 10: “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro e que muitos perderam a fé por causa disso.” É necessário que compreendamos isso: não podemos ser cristãos apegados ao dinheiro sem nos dar conta da dor dos irmãos, seja em âmbito pessoal seja em âmbito social. Olhemos em volta: a enorme parábola do mau rico e do pobre Lázaro se repetindo nos tantos e tantos pobres do nosso país, da nossa cidade,da nossa Igreja, muitas vezes bem ao lado da nossa indiferença.

 “É melhor dar do que receber” (At 20, 25). Ganhamos mais dando do que recebendo: ganhamos o Céu! A caridade é sempre realização do Reino dos Céus e é a única bagagem que restará neste mundo que passa. E devemos estar atentos, pois Lázaro pode estar no nosso próprio lar, no escritório, no consultório, no hospital ou na oficina em que trabalhamos. Olhe quem está ao seu lado. Olhe quem precisa de você: abra o coração, abra os olhos, abras as mãos, faça-se próximo do seu irmão e ele o receberá nas moradas eternas junto ao Cristo.

Autor:

Núbia Paula F. Coimbra - Anawin
Membro do Ministério de Formação Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de Loyola
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