A Oração do Senhor

“Senhor, ensina-nos a orar”. Esse foi o pedido que verteu do coração dos discípulos ao verem seu mestre rezar. Certamente familiarizados com as muitas orações registradas no Antigo Testamento, acostumados a verem nas sinagogas ou nas esquinas das ruas fariseus prestando culto e orando a Deus, reconhecem, entretanto, em Jesus uma nova dimensão de oração e intimidade com Deus, a qual transcende tudo que já experimentaram.

Sendo conhecida posteriormente como a Oração do Pai-Nosso, assinala a notória súplica do cristão. A Igreja recebeu e viveu desde as origens este dom indissociável das palavras do Senhor e do Espírito Santo, que a elas dá vida nos corações dos crentes. As primeiras comunidades rezavam a Oração do Senhor “três vezes ao dia” em lugar das dezoito bênçãos em uso na piedade judaica (CIC n°2767/68). Santo Agostinho (354-430), depois de mostrar como os Salmos e todas as orações da Sagrada Escritura convergem no Pai-Nosso, conclui: percorrei todas as orações das Sagradas Escrituras. Não creio que encontrais nelas algo que não esteja incluído na Oração do Senhor.

Uma interessantíssima reflexão realizada pelo pouco conhecido místico e mestre medieval, Hugo de São Victor, ordena de maneira lógica os vícios capitais a fim de relacioná-los com os setes pedidos do Pai Nosso. Tal meditação conduz nosso coração a penetrar mais intimamente no mistério da graça e da iniqüidade. Vejamos, pois, de maneira resumida essa proeza.

Para Hugo, o princípio de todos os males é a soberba, brotada em nosso íntimo quando deixamos de reconhecer a Deus como fonte de todo bem, atribuindo a nós mesmos a causa do bem existente em nós. É uma usurpação da glória de Deus. Assim dizemos: Pai nosso que estais no Céu, “santificado seja o Seu nome”. O coração soberbo ama o bem que recebeu não porque é bem em si, mas porque é seu. Quando vê esse mesmo bem no outro não o ama, pelo contrário, o detesta, gerando uma tristeza amarga, uma doença espiritual.

O segundo vício capital, a inveja. Para combatê-lo o Divino Mestre nos ensinou a pedir “Venha nós o vosso reino”. Deus reina em um coração repleto de caridade desejando para o outro o bem que desejaria para si mesmo. Da inveja provém a ira, pois se absurdamente alguém considerar que o Criador repartiu mal seus bens, lhe fez injustiça. Surge então, por um ato de extrema rebeldia, uma cólera contra Ele.

Pois bem, a soberba despoja o homem de Deus, a inveja nos separa dos homes e a ira despoja o homem de si mesmo fazendo-o perder o controle e o domínio de seu próprio ser. Por essas razões Nosso Senhor colocou como terceira petição “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. É a conformação com a vontade do Pai, a docilidade na escuta de Sua voz que nos permite vencer o pecado da ira.

Estando imerso no erro o homem cai em profunda tristeza, não tendo nenhum motivo de alegria e consolação. Tristeza: esse era o nome que os medievais davam à preguiça.  A preguiça ata o homem na coluna da inércia, retirando dele a vontade de trabalhar na vinha do Senhor. Logo o que dá força para trabalhar na vinha do Senhor é o pão de cada dia e Jesus nos fez pedir “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

Da tristeza nascerá a vontade de buscar a consolação nos bens exteriores, porque aquele que não encontra bem ou alegria dentro de si procurará consolação fora de si. Dessa forma surge a avareza, a cobiça desmesurada de bens materiais.  A sede de bens matérias cresce com a posse deles e para combater tal doença Cristo nos ensinou a rezar “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos nossos devedores”.

Quando a avareza não é vencida pela ação da graça nasce a gula. Esse vício seduz o homem e o reduz a um nível inferior ao dos animais, o homem que outrora quisera ser maior que Deus agora está abaixo de todos. Para combater tão grande mal a Oração do Senhor nos diz “Não nos deixei cair em tentação”.

Seduzido pela gula o homem submerge na luxúria. A luxúria escraviza porque nenhuma paixão tem tanto poder sobre o homem que, estando sobre a servidão de Satanás, dificilmente se liberta a não ser pela oração, penitência e auxílio da graça. Apropriadamente Cristo nos ensina dizer “Livrai-nos do mal”. É bem natural que o homem escravizado suspire e implore por sua liberdade, ansioso pela verdadeira felicidade e desejoso de alçar grandes vôos.

Enfim, a Oração do Senhor condensa todo aspecto da vida do ser humano sendo sua recitação forte instrumento de auxilio e santificação de uma alma piedosa. Não são raras as vezes que proferimos a Oração de maneira ausente e vazia. Convido-o, então, caro leitor, que após essa leitura, eu e você possamos nos curvar em adoração à Sabedoria Encarnada pedindo a Cristo o aprendizado de sempre orar como convém.

Conte-nos depois sua experiência e os favores da graça Divina ao bem rezar a Oração Senhor através do nosso site, no espaço para comentários. Gostaremos de conhecê-los. Pense nessa idéia!

 

Autor:

Robert Starling Membro da Obra Filhos de Maria
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