Festa da Epifania

Num mosteiro, um jovem monge passou meses, junto com outros, para tecer um grande tapete. Estava enjoado daquele trabalho cansativo e repetitivo. Um dia levantou de sua cadeira e saiu gritando com raiva: – Chega. Todo dia a mesma coisa. Não consigo mais continuar. Estava puxando um fio de ouro e me mandam cortá-lo, depois juntá-lo de novo, depois cortá-lo mais uma vez. Sempre assim. – Meu filho – lhe disse o monge mais velho, correndo atrás dele – pare, por favor. Você não viu o tapete do lado certo. Você estava trabalhando no avesso e somente num ponto. – Pegou o jovem pelo braço e o reconduziu na sala onde todos os outros tinham parado de trabalhar e estavam estendendo o tapete. – Veja e admire – disse o velho monge ao jovem. O noviço ficou encantado. Descobriu que estava trabalhando nos detalhes de um maravilhoso desenho: os Magos que se ajoelhavam na frente do Menino Jesus cheios de alegria, o adoravam e lhe apresentavam os seus dons. O fio de ouro que ele estava cortando e juntando era a auréola dourada do Menino Deus. O jovem entendeu o valor do seu humilde trabalho. Estava colaborando com uma obra grande e de extrema beleza. Ficou feliz.
No dia da Epifania do Senhor podemos lembrar quantas vezes já vimos pintada, desenhada ou mesmo representada a cena dos Magos, ajoelhados em adoração, na frente do Menino Jesus e de Maria, sua mãe. Sempre tem muitas estrelas, mas uma brilha mais do que as outras. É aquela que guiou os Magos. Fácil imaginar. Os artistas com as suas artes fazem o resto e nos deixam maravilhados. È bom.
Mais difícil, porém, é entender o sentido desta festa maravilhosa e ao mesmo tempo desafiadora. O Menino que nasceu no Natal é o salvador de todos e não somente de alguns. Esta é a boa notícia. A dificuldade é conduzir as pessoas ao encontro com o Salvador para que possam, ao mesmo tempo em que o acolhem, deixar-se acolher e amar por Ele.
Vivemos numa época em que tantos valores, inclusive os religiosos, são discutidos superficialmente, reduzindo-os a histórias do passado ou literalmente silenciados. Parece que não interessem mais, ou, se se chega a falar, é para dizer que agora estão reservados na esfera do privado. Cada um acredite no que quiser, decida como achar melhor. A religião parece ser questão de gosto; é inútil discutir, confrontar, aprofundar. Com tantas coisas mais urgentes para fazer – como consumir e se divertir – parece tempo perdido. Como acordar estes nossos irmãos e irmãs do desinteresse, da indiferença, do relativismo?
Não tenho receitas mágicas. Posso somente repetir a mensagem da festa da Epifania. O que Jesus veio nos revelar não é somente para alguns ou para quem quiser. Diz a respeito da vida de todos porque quer nos ajudar a dar um sentido à própria vida. Quando tiramos Deus da nossa existência e o reduzimos aos nossos gostos, de fato o substituímos com outras coisas ou com nós mesmos. Nós nos tornamos o critério de tudo. Do bem e do mal, do que está certo e errado, do que é justo e do que é injusto. O que nos parece liberdade de fato se torna uma prisão: não enxergamos mais nada além do que “nós” – o “eu” de cada um, afinal – pensamos, achamos, decidimos. Desta maneira não existem mais valores que sejam tais para todos e que, portanto, possam orientar a vida de todos e a convivência entre todos. A verdadeira liberdade exige a busca fadigosa da verdade, precisa ser construída sobre algo de sólido que nos faça crescer nos relacionamentos também com os outros porque todo ser humano cresce e se realiza somente no encontro com os outros e com o “Outro” que é Deus. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, o papa Bento XVI, falando do compromisso de educar os jovens para a justiça e a paz, lembrou que “o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem caráter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, conseqüentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas”.
Precisamos ter “referências” que vão além de nós mesmos, que possam nortear a vida de todos rumo à justiça e à paz. De outra forma sempre irão prevalecer os interesses particulares ou os “direitos” dos mais fortes e poderosos. Jesus veio para nos fazer conhecer o Pai, o Deus vivo e verdadeiro, que não ameaça e nem exclui a ninguém, porque ama a todos. Nele podemos encontrar o bem, a paz, a vida digna e fraterna para todos e com todos.
Afinal devemos abrir mais os nossos horizontes e não ficar fechados somente em nós mesmos. A vida, a história a ser construída é muito mais difícil, mas muito, muito, mais bonita do que pensamos. Como o tapete do noviço. Olhava somente num ponto e não entendia nada. Quando descobriu a maravilha da obra inteira ficou feliz.
Autor:
Dom Pedro José Conti -Bispo de Macapá






