Formação Doutrinal - Dei Verbum
O 21º Concílio Ecumênico o Vaticano II acontece na Igreja como uma resposta aos anseios papa, o Beato João XXIII e marca a abertura para as necessidades dos tempos modernos colocando-se em uma proposta de trabalhar tanto nas questões ad intra (internas) como ad extra (externas). Entendendo a Igreja como povo de Deus, Sacramento, Sinal de Salvação o Concílio tratou de importantes questões para a vida de todos os fiéis, colocando todos na co-responsabilização de se fazer acontecer uma verdadeira evangelização como resposta urgente ao apelo de uma humanidade carente da Palavra do Senhor que deve encarnar-se no cotidiano de todos aqueles que se propõem a atualizar em suas vidas os sentimentos do Cristo, como apresenta São Paulo na carta aos Filipenses.
Nesse sentido torna-se importante que se conheça os diversos documentos oriundos dos três anos (11 de Outubro de 1962 a 8 de Dezembro de 1965) de intensos trabalhos dos padres conciliares. Esses documentos são agrupados em diferentes tipos, de acordo com a finalidade. Assim, tem-se que o Vaticano II produziu 4 Constituições (Dei Verbum, Lumem Gentium, Sacrosanctum Concilium e Gaudium et Spes); 3 Declarações (Gravissimum Educationis, Nostra Aetate, Dignitatis Humanae); e 9 Decretos (Ad Gentes, Presbyterorum Ordinis, Apostolicam Actuositatem, Optatam Totius, Perfectae Caritatis, Christus Dominus, Unitatis Redintegratio, Orientalium Ecclesiarum, Inter Mirifica).
Cada um desses documentos visa orientar o modo de agir e compreender da Igreja frente às diversas realidades com as quais esta se depara no cumprimento de seu tríplice múnus apostólico: Educar, Santificar e Governar. Esses múnus ou missões a Igreja retira de sua identificação como Corpo Místico de Cristo e age como o próprio Jesus enquanto Profeta, Sacerdote e Rei.
Esse agir da Igreja se baseia na própria revelação que Deus faz ao seu povo. É exatamente esse o assunto abordado na Constituição Dogmática Dei Vebum (O Verbo de Deus) em seus 6 capítulos. A partir da compreensão do que a Igreja entende como Revelação, a constituição traz em seu corpo o modo como essa revelação chega ao Povo de Deus e a forma com que ela interfere ou conduz a vida desse povo.
Quando se fala em revelação não está dizendo de uma apresentação de mistérios desconhecidos ou ocultos, mas sim do ato gratuito de Deus de se dá a conhecer,
Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4)(DV 2).
Esse ato de Deus abre à sua criatura o relacionamento outrora perdido. É um movimento totalmente gratuito que usa e usou do todo criado para se comunicar aos homens não obstante as limitações cognitivas e espirituais presentes ao longo dos tempos. Nesse sentido a Dei Verbum apresenta a revelação como um agir de Deus que rasga desde todo o sempre o véu que oculta a sua presença e separa o seu relacionamento com a sua obra-prima, que são os homens.
O modo essencial de Deus se revelar é manifestado nas Sagradas Escrituras, que por ser esse instrumento da Revelação divina tem Deus como autor ao mesmo tempo em que Ele utiliza de homens e de suas capacidades para falar aos homens.
As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo. 20,31; 2 Tm. 3,16; 2 Pd. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e, como tais, foram confiados à própria Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem, por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (DV 11).
É nesse movimento de Deus que a Sagrada Escritura, juntamente com a Sagrada Tradição e o Sagrada Magistério apresentam e compreendem o “falar” de Deus aos seus filhos. Assim, a Escritura é portadora de toda a verdade, sem erro ou falhas no que diz respeito à Salvação. Não se constitui enquanto verdade de outras ciências, porque não é esse o foco da Revelação, mas no que tange ao agir de Deus para conduzir o seu Povo de volta à Pátria Celeste, ela é o meio fiel e seguro de se pautar os caminhos.
Neste sentido, compreende-se que a verdade revelada não é outra coisa senão o encontro pessoal com o próprio Deus que, de uma vez por toda, falou por meio da Encarnação do Verbo, ato sublime desse “dar-se” de Deus. Em Cristo encontramos o Verbo, a Palavra de Deus que é, para cada um de seus filhos eleitos e santificados no Filho, o caminho e a plenificação de toda a vida.
Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade deDeus, manifesta-se a admirável “condescendência” da eterna sabedoria, “para conhecermos a inefável benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e cuidado da nossa natureza” (DV 13)
A Revelação Divina presente na Sagrada Escritura e amparada pela Tradição e pelo Magistério é um contínuo convite à maravilhosa empreitada de se conhecer a Cristo e por Ele, com Ele e Nele viver o abandono à Vontade do Pai, assumindo, pelo Espírito, a reta intenção de se conformar com aquilo que cada um foi chamado a ser: santo e irrepreensível. Entendendo essa condição não como uma aparente perfeição onde não cabem erros e limitações, mas, antes, como um saber lidar com os limites, tendo-os como instrumento do Deus que se dá a conhecer na realidade humana, para que sejamos filhos no Filho.






