De mãos vazias

“No crepúsculo desta vida aparecerei diante de vós de mãos vazias” – Teresa de Lisieux
Ao mergulharmos no conhecimento de nosso Carisma através do caminho da vida da pequena flor de Lisieux, não poderíamos deixar de contemplar esse traço de sua espiritualidade, tão essencial à nossa, de Anawin. Como ser pobre tendo ainda alguma coisa? Teresa então nos ensina que para ser verdadeiramente pobre e pequeno deve-se abrir mão de tudo, inclusive de nossos méritos e nossas boas ações. Assim ela afirma: “Compreenda que para amar a Jesus, para ser vítima de seu Amor, tanto mais se é íntegro para passar desse amor consumidor e transformador à medida que se é mais fraco, sem desejos e sem virtudes. Apenas o desejo de ser vítima é suficiente. Mas deve-se consentir em permanecer sempre pobre e sem força e esta é exatamente a dificuldade”
Quantos de nós já não esbarramos em nós mesmos, em nossas limitações e fraquezas no caminho da santidade! Nossas imperfeições não pareceram muitas vezes montanhas intransponíveis aos nossos olhos? Nossa inconsistência, impaciência, tibieza ou fragilidade em praticar o bem muitas vezes não parecem criar abismos entre nós e Jesus? Diante disso Teresa nos responde: “Aprouve a Jesus mostrar-me o único caminho que leva à fornalha divina. O caminho é do abandono da criança que, sem medo, adormece nos braços do Pai. É a CONFIANÇA e nada mais que nos deve levar ao amor”.
Continua então o passarinho de Deus a nos ensinar o caminho do Kenosis (do esvaziamento), da pobreza que alcança o Reino: “Aceite ser uma criança assim: levante sempre o seu pé para subir a escada da santidade. Nem mesmo conseguirá subir esse primeiro degrau. Mas Deus pede apenas a boa vontade. Vencida pelas suas tentativas infrutíferas Ele descerá, toma-la-á nos braços e introduzi-la-á para sempre no Reino de Deus” (PA 1403).
A Maria da Trindade, que gostava de ver sinais fortes (como muitos de nós) Ela responde: “E se o bom Deus a quiser agora fraca e incapaz como uma criança? Você acha que terá menos merecimento? Consinta, pois, em tropeçar a cada passo e suportar sua cruz na fraqueza. Ame sua incapacidade. Sua alma lucrará mais do que se, sustentada pela graça, realizasse com entusiasmo coisas heróicas, que encheriam seu coração de auto-suficiência e orgulho” (PO 2192).
“Obras e confiança?” Teresa oferece aqui um belo equilíbrio. Ame quanto puder, tente provar isso com atos, mas não o conseguindo, confie-se à Misericórdia infinita.
Com o auxílio do Senhor, doe-se a si mesmo até atingir a sua boa vontade e, não podendo, entregue-se inteiramente à sua Misericórdia, que pode complementar, ajudar e curar” (De Mãos Vazias, pág.126,127).
“Escalar? Deus quer ver você descer! Adquirir? Você deve, antes, perder (...) Você sempre pensa que já chegou... Você fica admirado ao cair. Não, você sempre deve esperar cair (LG, 26). “Você deve consentir em permanecer pobre e sem força, e aí exatamente está a dificuldade”. (Cr 197)
O pobre de espírito visto por Teresa não visa preocupar-se com resultados brilhantes. Ele não calcula ter êxito nos seus esforços. Ele não deseja ter belos pensamentos. Ele não quer entender e compreender tudo. Ele vive da fé e da esperança. Seu amor é abrir mão de si mesmo. Ele não pergunta, preocupado, se fez muitos progressos. Vive da providência divina numa atitude de oferecimento de si. Está aberto a tudo o que Ele pede e dá, mesmo no sofrimento. “Seu abandono é um contínuo ato de confiança: um estado de contínua doação ao Amado (de alma hóstia) em que confia e espera na sua Misericórdia infinita”.
Terminemos com mais um ensinamento de nossa pequena doutora: “A santidade não consiste em fazer isto ou aquilo. Consiste numa atitude do coração pela qual nos abandonamos, humildes e pequenos, nos braços de Deus, conscientes da nossa fraqueza e confiantes até o extremo na bondade do coração de nosso Pai”.
Autor:
Érika Vilela - AnawinFundadora da Comunidade Filhos de Maria






