Os conselhos evangélicos
Quando nos colocamos diante do Senhor para que Ele nos fale e nos indique um caminho seguro para seguirmos, a sua resposta nunca tarda em
chegar a nós com a profundeza do oceano e com a clareza de uma fonte cristalina. Talvez uma das mais belas respostas para a questão do caminhar em Deus seja “os conselhos evangélicos”.
Hoje, enquanto rezava meditando sobre o texto de Jo 2, o fiz com um pensamento fixo no coração: “Senhor, fala-me o que queres de mim porque não quero mais caminhar guiado pelas minhas vontades ou simplesmente amparado pelos desejos e gostos. Quero fazer a tua Vontade e é só isso que me importa”. Como não poderia ser de outra forma, Ele me disse nesse texto que o único caminho é o de ser Pobre, Casto, Obediente e Mártir.
Assim, compreendi que a pobreza está no conhecimento que o Amado tem do coração humano. Ele conhece bem a nossa condição porque, sendo Homem e Deus, experimentou plenamente da nossa natureza tornado-se então vencedor contra todo o pecado. Se queremos caminhar com Cristo, devemos tomar posse do que somos e, amparados em seu Amor, lutarmos por sermos suas testemunhas, tendo assim um coração pobre, manso e humilde, pronto e disposto a servir em qualquer tempo e lugar. Não basta só estar pronto. É preciso também estar disponível. E isto é a pobreza: a plena disposição por servir e amar. Não é só não ter ou ter pouco, o que implicaria tão somente em estar pronto. Deve-se também estar disposto, com a tenda alargada para viver na total dependência. Essa dependência nos leva não apenas a querer não ter coisa alguma, mas a fazer uso de tudo em uma partilha de bens e de almas. Se dependemos do Senhor, como não colocar tudo isso à disposição dos outros? E se a minha partilha é verdadeira, não estou eu permitindo que aquilo que Deus quer de mim se manifeste nos mínimos detalhes? Assim, ser pobre, pela própria conseqüência dessa prontidão, leva-nos a querer e desejar colocar tudo em comum, pois encontrar tal tesouro nos impulsiona a conduzir outros a fazerem a mesma experiência. Partilhemos então os bens, os dons, a vida.
Essa dependência conduz à castidade, descrita no autodomínio, que só será bem compreendida se se perceber que dominar-se é saber se colocar no lugar em que Deus nos plantou. Por isso, o zelo pela casa do Senhor deve nos consumir. A casa, mais que o Templo, é o nosso coração e o dos irmãos (porque o caminho, embora individual, é sempre uma condição comunitária). Sim, ser casto é se entregar para expulsar todos os vendilhões do templo de nosso coração. É experenciar o verdadeiro autodomínio. É viver a purificação de todo o nosso ser para assemelharmo-nos mais e mais ao Amado. Autodomínio é a condição para poder expulsar vendilhões. É engraçado perceber que em uma atitude do Cristo aparentemente “descontrolado” está expresso um total autodomínio. Jesus, ao fazer o chicote, dominou-se a si mesmo, o que não implica uma quietude complacente, mas uma atitude firme a fim de se fazer cumprir a verdade de sua vida. Isso é ter autodomínio: saber configurar-se com a verdade, beleza e bondade do que o Senhor nos chama a ser, sem meios termos.
Livres e apaixonados podemos re-encontrar a alegria que é ouvir e vivenciar a Palavra do Senhor. Podemos dar ouvido Àquele que nos conhece, ama-nos e nos sustenta. Obedecer, então, não é mais simplesmente cumprir uma regra, mas re-encontrar-se; trazer à própria vida o sentido dela por estarmos nos passos indicados pelo Amado, que usa de todos os meios e pessoas para fazer chegar a cada um de nós a sua Vontade. Por isso, não nos importamos de cumprir obrigações na aceitação de todos os caminhos, porque sabemos quem é o mandante. Não é algo exterior. Aquele que nos conhece é o autor de toda ordem, já que, uma vez seduzidos por Ele, passamos a vê-Lo em tudo, em todos. Como a esposa dos Cantares, anseia ardentemente por encontrá-Lo e assim vai perguntando a tudo e a todos sem se apegar a coisa alguma, pois olha e sente a presença Daquele que ama e a Ele quer se unir para todo o sempre. Essa união é fruto de um coração que dá ouvidos (obedecer vem da mesma raiz de “escutar”, no latim), que se deixa ser conduzido por crer naquilo que escuta no coração como Palavra proclamada pelo Altíssimo, que é próximo e não mais distante. Dá-se ouvidos por ter a certeza de que Ele é o Senhor e por isso não precisa necessariamente compreender, apenas amar e se deixar ser amado.
Tudo isso nos conduz a uma última atitude muito própria daqueles que se deixam ser gestados no ventre lúcido da Virgem: o martírio. Viver o martírio, mais que morrer, é aprender a viver com um sentido pleno de existência. Assim, o martírio não é algo que acontece em um momento inusitado, mas sim, uma construção de todo aquele que se deixa identificar com o Mestre de Nazaré para aprender que o amor é a medida e o limite de tudo. Por isso, busca todos os dias fortalecer-se na pobreza, castidade e obediência, para poder estar com o coração traspassado de amor a ponto de dar a própria vida. Essa entrega é feita no dia a dia à medida que vai morrendo para si mesmo para ir se configurando o Amado. É deixar-se, pela ascese e sobretudo pelo amor, ir modelando àquilo que Deus quer de nós, isto é, a santidade. Ser santo é refletir na vida cotidiana o plano do Pai para nós, o que implica em um processo de perda daquilo que, entranhado em nossa natureza, impede a perfeita união com o Cristo que se fez, Ele mesmo, desfigurado para nos identificar com o coração do Pai.






