Na noite da alma se encontra a Vida
É importante que se compreenda que a noite escura, sendo um estado da alma e não somente um momento, carrega consigo um profundo sentido de
vida. A noite é o tempo em que os sentidos se silenciam, os temores às vezes se avolumam, mas, acima de tudo, é o tempo do encontro da alma com o seu Criador. É quando ela já não pode mais seguir sozinha e por isso adentra em uma luta colossal por aprender a depender cegamente de um Deus, de tal forma presente, que a sua luz chega a ofuscar os olhares desavisados.
"Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido? Como o cervo fugiste, havendo-me ferido, Saí, por Ti clamando, e eras já ido."
Pode-se tomar esse trecho da primeira canção do Cântico Espiritual, texto posterior ao "Noite Escura", para se entender um pouco o que o santo diz sobre a noite. O encontro com o Amado causa uma ferida de amor tal que nada e ninguém pode curar. Ferida esta sentida no coração não como presença imediata, mas bem mais como ausência. Ausência daquele tudo desejado que não é encontrado em coisa alguma passageira. Por isso, quem encontrou o Senhor tem sempre o desejo de mais; um sentimento de insaciabilidade.
Na noite é isso que começa a acontecer. Tudo começa a perder o sentido, a razão e até mesmo o gosto. O que outrora animava, agora causa pesar. Por isso, quando se entra na noite escura se propõe, em um "contrato" não declarado, a ter a Deus por única companhia.
Certamente seja isso o que mais assusta, pois o homem não está muito acostumado a viver esse momento de tamanha intimidade. Além disso, a noite vai exigir de cada um o caminhar firme no abandono e no processo de se ter a Deus por único motivo. É um amor gratuito que começa a ser desenhado na relação Deus e homem. Relação escancarada na Encarnação.
Todo esse processo leva a compreender um pouco o que São João da Cruz quer dizer com a primeira estrofe:
"Em uma noite escura, de amor em vivas ânsias inflamadas. Oh ditosa ventura! Sair sem ser notada. Já estando minha casa sossegada"
A noite que tão escura se faz não deixa que se perceba os sentidos, sentimentos, razões, e elaborações. Só o amor guia a alma que de tal forma foi tomada, conquistada, que se sente inflamada mesmo vivendo profundo sofrimento e secura. A dor da ausência faz com que se busque o inatingível; que nada se queira pois tudo é pesado e não supera o vazio.
A casa sossegada são os sentidos e impressões que, deixados de lado, não fazem oposição. Não exigem os seus direitos porque o desejo pelo Amado é tal que a alma o busca contra toda esperança e lógica. Ela só quer viver aquilo que o Amado deixar ainda entrever pelos leves lampejos de sua presença de outrora. Pode-se dizer que aqui a alma começa a gritar como o Profeta Jeremias "Seduziste-me Senhor e eu me deixei seduzir". O Deus que lhe veio ao encontro agiu com tamanha ternura e verdade que, em uma luta desigual, a alma não só foi seduzida - em atitude passiva - mas se deixou seduzir; isto é, assume os riscos de depender do Amado ainda que nada lhe venha em contrapartida. E isso é a vida buscada por quem se sabe profundamente amado. Essa é a vida plena apresentada por Jesus no Evangelho. Vida plena, aquela que se realiza no contato e na vivência com o Eterno.






