Tirar do caminho
Nesta era da cultura da subjetividade há o enfoque acentuado na busca da realização pessoal, através de satisfação de desejos e atrativos nem sempre
balanceados ou afinados com valores de grau mais elevado e duradouro. Sacrificam-se estes em vista de absolutização de gostos subjetivos. Nessa ótica, muitos valores inerentes à dignidade humana, à vida e ao transcendente são considerados preconceitos ou tabus inúteis. Deste modo, a busca do prazer a qualquer preço e o descompromisso com bens das culturas de grupos e povos são massacrados. A verdade objetiva é trocada pelo desejo subjetivo. Fala-se: “O que é que tem? Não estamos prejudicando ninguém!” O valor fundamental da ética e da moral são considerados preconceitos. Está muito na moda a propugnação de direitos. Confunde-se, às vezes, direito com o massacre de valores inerentes à vida e a dignidade de instituições de ordem natural. Com o tempo poder-se-á até defender-se o “direito” de matar os outros! O próprio matrimônio fica escanteado com a união utilitária das pessoas sem um ideal maior de dar vida com o enfoque natural de um casal capaz de tê-la com a fecundidade ordenada pela natureza e pelo Criador. Sem a aceitação de renúncia de desejos contrários ao ritmo do sentido maior da vida e da busca da realização de um ideal de serviço à humanidade, não se vai muito além da procura de satisfação dos sentidos animalescos. O ser humano tem sede de algo maior. Não se contenta com o prazer fugaz. Há pessoas que dão a vida, renunciando até o bem estar passageiro, para se colocarem com altivez moral na ação de colaborar com causas de valor transcendente. Não se curvam ao consumismo, à satisfação dos próprios instintos e se tornam verdadeiras promotoras do bem comum.
Pedro, sabedor da resolução de Jesus de ir a Jerusalém, mesmo conhecendo que lá iria ser condenado à morte, quis convencer o Mestre de mudar de idéia. Mas o Senhor não aceitou o conselho. Não quis sair do caminho de Salvador da humanidade, mesmo tendo que enfrentar a morte. Sair do caminho para não enfrentar o desafio dos opositores seria entregar a causa aos adversários e dizer que eles estariam com a razão. Jesus é taxativo com Pedro: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (Mateus 16,23).
Tivéssemos mais a cultura de valores éticos, fundados na ordem da natureza criada por Deus e iluminados pela consciência da verdade e do bem objetivos, assumiríamos mais atitudes superadoras de simples desejos subjetivos de pessoas e grupos que querem passar por cima de valores e ideais mais elevados da dignidade humana. Teríamos mais união para buscarmos superar as misérias de comportamentos inadequados a quem não aceita os ditames da altivez ética e moral.
O ensinamento do Filho de Deus nos dá um direcionamento da vida em busca de um sentido mais elevado. Não basta o ser humano buscar o que é passageiro para se realizar: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?” (Mateus 16, 26). Ele nos exorta a plantarmos para colhermos os frutos e lembra que Deus retribuirá cada um “de acordo com sua conduta” (Mateus 16,27).
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Autor:
Dom José Alberto Moura, CSSArcebispo Metropolitano de Montes Claros - MG






