O caminho do amor

 

   Subida a Jerusalém. Particularmente, gosto muito quando os evangelistas situam Jesus em Seu caminho para Jerusalém, a Cidade Santa. O Filho, conhecendo os desígnios do Pai, parte em caminhada rumo a Jerusalém a fim de que se consumasse tudo aquilo que os profetas anunciaram a Seu respeito.

    O Evangelho de São Lucas, meditado no 13º Domingo do Tempo Comum, narra o início dessa caminhada. São por volta de dez capítulos os que contam a caminhada de Jesus da Galiléia rumo a Judéia e nos quais Ele cura, envia discípulos em Seu nome, conta parábolas e, sobretudo, ama.

    Na Sua caminhada, Jesus nos ensina a caminhar e a caminhar ao Seu lado rumo a uma meta. Ele sabia que iria ser elevado aos céus na cruz e nesse versículo inicial da leitura deste Evangelho, já nos ensina uma importante lição: Jesus é um homem decidido a dar a vida pela salvação da humanidade, por isso parte para Jerusalém. Ele sabia de todo o sofrimento pelo qual haveria de passar, mas não hesita em decidir partir. Jesus não é um masoquista que vai buscar sofrimento. Jesus decide dar a Sua vida, pois o Pai O oferece como vítima de Amor para nossa salvação. Assim, partir para Jerusalém é colocar-se no caminho do Amor, do Sacrifício, da Santidade.

    Esse Caminho do Amor é comprido e muitas coisas acontecem nesse passo a passo. Jesus começa enviando mensageiros à Sua frente para anunciar Sua passagem e preparar-Lhe hospedagem. Ponho-me a imaginar qual seria o conteúdo da mensagem destes homens que iam à frente. Será que proclamavam: “O Rei dos Judeus está vindo! Recebam-No em suas casas!” ou será que diziam “Abram as portas! Jesus, o Filho de Davi quer repousar, pois está muito cansado!”. Não, não é isso que os mensageiros levavam em suas bocas. No Caminho do Amor, Jesus se apresenta em nossas portas, sobretudo na presença de seus mensageiros: o pobre, o doente, o preso, como aquele que tem sede, como o estrangeiro, na pessoa de cada homem e mulher. Jesus é a mensagem destes que vão à frente, de um Deus que quer adentrar em nossa casa e cear conosco. Mas O recusamos muitas vezes como os samaritanos.

     Basta sabermos que está seguindo o Caminho de Jerusalém, o caminho do Amor, para negarmos recebê-Lo. Não conseguimos compreender a pobreza do coração de Cristo que optou seguir este caminho e não Lhe abrimos as portas. Nem mesmo os apóstolos entenderam no primeiro instante, pois disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para que os destrua?”. E foram repreendidos por Jesus, pois Ele também daria a vida por aqueles que Lhe negavam hospedagem. Esse é o Caminho de Jerusalém, o Caminho do Amor. Foge a toda lógica, está distante da razão humana. Jesus declara Seu Amor por quem Lhe negou. Ele daria a vida também por eles.

      E Jesus continuou Seu caminho. Muitos já caminhavam com Jesus e outros tantos, atraídos por este caminho, desejam também seguir. São três os casos que o Evangelho nos narra. O primeiro é alguém que diz: “Eu te seguirei aonde quer que tu vás.”. Homem corajoso este! Com certeza ignorava na razão o Caminho do Amor de Jesus. Mas engraçado este caminho! Ao mesmo tempo em que vai contra a lógica da sabedoria do mundo, atrai homens e mulheres para seguir por ele, pois é Sabedoria de Deus. Exerce ao mesmo tempo um fascínio e um repúdio por parte dos homens. E este homem se sentiu fascinado, pois pela sua fala declara seu desejo, a sua atração. Essa atração para seguir este Caminho de Amor, muitos de nós sentimos, mas falta-nos a coragem de dizer a Jesus: “Quero ir com você!” As palavras de Jesus são verdadeiras para com esse homem, a fim de que ele compreendesse que o Filho do Homem não ajunta nada aqui na terra, mas sim tesouros no céu. Não há para Jesus honra, glória, prazer, poder na terra que se compare com a glória do mundo que virá, com a glória da Jerusalém Celeste. E mesmo só encontrando desprezo sobre a terra, Jesus nunca deixou de Amar.

      A outro jovem é Jesus quem diz: “Segue-me!”. “Vem caminhar comigo neste Caminho de Amor!” Jesus convida muitos a seguir este caminho, mas muitas vezes respondemos como esse jovem: “Deixa-me enterrar meu pai primeiro!”. Ao ler este Evangelho para redigir este texto, percebi algo que nunca havia notado. Não há nenhuma palavra que diz que o pai deste jovem havia falecido naquele instante. Sem pretensão exegética, mas apenas no desejo de abrirmo-nos aqui a uma reflexão, poderíamos sim pensar que esse pai estivesse já falecido, mas também que poderia morrer em um dia, ou em dez, quinze, vinte anos. E o jovem o usa como muleta. Hesitando em seguir, desculpa-se com a morte do pai que, quem sabe, poderia ainda nem estar morto. Mas Jesus é incisivo: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos, mas tu vai e anuncia o reino!”. É como se dissesse: “Eu te quero, jovem! Hoje! Vai anunciar meu reino! Vem seguir neste caminho de Amor!”.

      O terceiro e último caso daqueles que são chamados e atraídos pelo Caminho do Amor diz: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus”. Uma condição! Este jovem coloca uma condição diante do chamado que sente em seu coração para seguir Jesus. Este jovem quer seguir, mas tem medo. Tem medo de perder os seus, a segurança de sua casa. Tem medo de abandonar-se nas mãos do Pai, pois o caminho do Amor é também caminho do Abandono. E o medo é fruto do pecado, é contrário ao Amor. Quem age com medo recua, como diz Santa Teresinha e lhe é necessário o Amor para que possa alçar vôos. Assim, Jesus responde que quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do Reino. Ou seja, quem tem medo de colocar-se no caminho do Amor não é digno do Reino. Não é preciso ter medo de Jesus, pois Ele não nos tira nada, mas nos dá tudo, como nos ensina o Santo Padre.

       O curioso desse texto do Evangelho é que após cada palavra de Jesus o diálogo não continua, se encerra. Jesus dá a última palavra. Isso acontece, porque quem continua o diálogo somos cada um de nós com nossa resposta pessoal. Nós podemos nos encontrar em cada um dos três casos. Isso não importa! O importante é que diante deste caminho do Amor que Jesus inicia, somos chamados a caminhar com Ele. Este caminho nos atrai, pois à imagem de Deus somos também Amor e nosso coração arde também em desejo de se dar. Precisamos dar uma resposta. O caminho de Jerusalém, esta subida é um caminho de descida que vai contra toda a lógica do mundo, pois nos ensina a perder a vida para salvá-la; educa-nos na pobreza, na obediência, na castidade e no martírio; impulsiona-nos a ser hóstias-vivas e a dar a vida por Amor. Não tenhamos medo!

       Vamos! Vamos todos juntos subir o Caminho do Amor!

Autor:

Henrique Almeida - Consagrado
Membro do Ministério de Formação Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de Loyola
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