ENRAIZADOS EM CRISTO

 

2ª catequese: ENRAIZADOS EM CRISTO

 

1. Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé (Cl 2,7). Enraizados em Cristo. Como é possível ter uma identificação tão profunda com Cristo, a ponto de encontrarmos nele nossa força e as razões para viver e lutar? Para lhes dar uma resposta adequada, lembro-lhes um conto do escritor russo León Tolstói (1828 – 1910),recordado pelo Papa Bento XVI, alguns anos atrás (05.04.2007).

 

 

2. Um soberano pediu a seus sábios que lhe mostrassem Deus. Eles não foram capazes de lhe satisfazer seu desejo. Então, um pastor que regressava do campo ofereceu-se para dar uma resposta ao desejo do rei. Começou mostrando ao soberano que seus olhos não eram mesmo capazes de ver o Senhor. “Mas então”, pediu-lhe o rei, “ao menos me mostre o que Deus faz!” "Para poder responder a esse seu pedido”, respondeu-lhe o pastor, “devemos trocar nossa roupa". Hesitante, mas tomado pela curiosidade, o soberano concordou. Entregou ao pastor sua roupa real e vestiu a roupa simples daquele pobre homem. Então, o pastor lhe disse: "É isso o que Deus faz!" De fato, o Filho de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, deixou seu esplendor divino e despojou-se de si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens; aparecendo com a forma humana, humilhou-se a si mesmo... até à morte de cruz (cf. Fl 2, 6ss.). Deus fez uma troca sagrada: assumiu o que era nosso, para que pudéssemos receber o que era seu, tornar-nos semelhantes a Deus e ter Sua força.

 

 

3. Tornar-nos semelhantes a Deus: eis nossa meta. Há um provérbio chinês que diz: “Quem não sabe aonde quer chegar, não chega a lugar nenhum”. O desafio vivido por muitos jovens é justamente este: muitos não sabem de onde vieram e não sabem para aonde vão. Pessoas assim tornam-se presas fáceis de uma corrente de pensamento que podemos chamar de individualista e relativista. Para os que, consciente ou

inconscientemente, a seguem, não há bem, não há mal; não há o certo nem o errado;

não há verdade nem mentira; não há, portanto, nem pecado nem graça. Enfim, não há

nada objetivo. O ser humano passa a ser a medida de tudo: “Bom é o de que eu gosto”; “Certo é o que eu acho certo”; “Verdade é aquilo que eu acho que é verdadeiro”...

 

 

4. Ao se apresentar como “Caminho, verdade e vida”, Jesus Cristo deixa claro que tem uma proposta de vida para nós: quer que construamos nossa vida nele. Ser cristão significa ser enxertado nele.

5. Mas, quem é Jesus Cristo? Minha pergunta vai ainda mais longe: por que escolher Jesus Cristo? Afinal, ele não é o único que se apresenta diante de nós como uma proposta religiosa. Todas as religiões têm como fundamento básico a oração, a esmola, o jejum, o amor e a paz. O que Jesus, porém, nos traz de novo? Por que escolhê-lo e não escolher outro líder religioso ou outra proposta?

 

 

6. Jesus Cristo é o Filho de Deus. É a manifestação de Deus em forma humana (cf. Ef 2,7). É o Filho do Homem; é o homem na plenitude de sua condição divina. É o Homem-Deus: manifestação visível de Deus invisível. É a imagem do Deus invisível (cf. Cl 15). É o Filho de Deus e Deus ele mesmo. É a Palavra do Pai – isto é, ele nos apresenta quem é o Pai.Nenhum de nós tem alguém que é sua própria expressão, sua palavra. O Pai tem. Pela experiência pessoal e íntima que teve de seu Pai desde toda a eternidade, pode nos revelar Deus e nos fazer conhecer quem é Deus. Ele nos manifesta Deus que ninguém viu (cf. Jo 1,18).

 

 

7. O cristianismo não parte de uma ideia de Deus para concluir que Jesus é igual a Ele. No cristianismo, o ponto de partida não é Deus, mas Jesus. É preciso, pois, prestarmos

atenção nele e debruçar-nos sobre o Evangelho, para conhecê-lo. Ele disse: Quem me vê, vê o Pai (Jo 14,9). Jesus convida os discípulos a conhecerem o Pai, a partir da experiência dele. Restituindo a vida a mortos, a saúde a doentes, a liberdade e a dignidade a todos, Jesus nos convida a crer nele a partir de suas obras (cf. Jo 14,11).

 

 

8. A imagem de Deus que Jesus nos propõe é original, única: a iniciativa da salvação é do Pai: Ele nos amou primeiro; o relacionamento entre o Pai e nós é marcado pela

misericórdia; o amor toma a forma de serviço, como no Lava-pés. Portanto, não é mais o homem e a mulher que servem a Deus, mas é Deus que agora os serve (cf. Mc 10,45; Mt 20,28). A nova Aliança que Jesus veio estabelecer entre nós e o Pai não se baseia na

obediência da Lei, mas no acolhimento do amor do Pai. Não mais se busca Deus, mas se acolhe Deus, que se comunica e nos dá seus dons. Agora, o Pai nos dá a capacidade de amar e o ser humano se torna templo do Espírito Santo, único santuário de Deus (cf. 1Cor 23,16; 2Cor 6,19). O ser humano descobre que o culto que agrada a Deus é o amor ao próximo (cf. Rm 12,1); que Deus não olha os méritos das pessoas, mesmo porque nem todos têm méritos, mas todos têm necessidades. Deus olha, sim, nossas necessidades e, por meio de Seu Filho, nos convida: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso (Mt 11,28).

 

 

9. Podemos proclamar, pois, que Jesus Cristo

· é Deus feito homem; é o Emanuel;

· é aquele que nos revela o amor de Deus;

· é aquele que nos convida a entrar em sua amizade (cf. Jo 15,14-15);

· é o Salvador, que nos livra do pecado e da morte;

· é aquele que revela o ser humano ao próprio ser humano, chamando nossa atenção

para a sublimidade de nossa vocação;

· é a resposta de Deus às grandes aspirações do coração humano.

10. Mediante a fé, estamos enraizados em Cristo. Estar enraizados nele significa responder concretamente ao chamado de Deus, confiando nele e pondo em prática sua Palavra: Por que me chamais “Senhor”, “Senhor”, mas não fazeis o que vos digo? (Lc 6,46). Aceitar Jesus Cristo como Senhor significa levar a sério o Batismo, quando Cristo selou uma aliança conosco. Ele nos convida a viver com ele em todas as circunstâncias de nossa vida e nos chama a ser santos.

 

11. Lembrou-nos o Papa Bento XVI, na catequese de 13 de abril deste ano: “A santidade, plenitude da vida cristã, não consiste em realizar obras extraordinárias, mas na união com Cristo, na vivência de seus mistérios, fazendo nossas as suas atitudes, pensamentos e comportamentos. A medida da santidade é dada pela altura da santidade que Cristo alcança em nós, daquilo que, com o poder do Espírito Santo, modelamos em nossa vida à luz da sua”.

 

 

12. Para muitos, torna-se difícil o acesso a Jesus. Muitas imagens e comentários que circulam a respeito dele, e que são apresentados com uma capa pseudo-científica, tentam esvaziá-lo. Eu não aceitaria dar minha vida por esse Cristo esvaziado. Aceito, sim, a experiência de Tomé que, tendo colocado o dedo nas chagas de Cristo, proclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Aceito a experiência de João, que proclamou: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra de Deus..., isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos...” (1Jo 1,1 e 3).

 

 

13. Onde podemos encontrar Jesus, para viver como ele viveu e, então, testemunhá-lo? Podemos encontrá-lo

· na Palavra de Deus, especialmente no Evangelho que, com palavras facilmente

acessíveis a todos, nos apresentam o que Jesus falou e o modo como viveu entre nós;

· na oração, pois nela, mais do que falar a Cristo, o escutamos. Vale recordar uma

observação de Madre Teresa de Calcutá, em resposta a um repórter que havia lhe

perguntado “O que é rezar?” Ela lhe respondeu: “É escutar Deus.” “E o que Deus lhe

fala, quando a senhora o escuta?”, insistiu o repórter. Madre Teresa completou: “Ele

não me fala, Ele me escuta. E se você não for capaz de entender isso, nem eu serei

capaz de lhe explicar”;

· nos sacramentos, que são ações de Cristo, que os administra por meio de homens,

especialmente na Eucaristia, que contém o próprio Cristo;

· nos apóstolos e seus sucessores: Quem vos ouve, a mim ouve (Lc 10,16);

· nos pobres: Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são

meus irmãos, foi a mim que o fizestes! (Mt 25,40);

· nos enfermos, nas pessoas que Ele coloca em nosso caminho, quando nos reunimos

em seu nome (cf. Mt 18,20), em Maria, a Mãe de Jesus etc.

 

 

14. Enraizados em Cristo, para sermos seus amigos. É para nós, aqui, que Jesus diz: Já não sois servos, mas amigos (Jo 15,15). Mas, “O que é a amizade?”, perguntou o Papa Bento XVI, na manhã em que comemorava sessenta anos de sacerdócio (29.06.11). Ele mesmo respondeu, dizendo que a amizade é uma comunhão do pensar, do querer e do dom recíproco.

 

 

15. Para pensar como Jesus, devo conhecê-lo; para querer como ele, minha vontade deve aderir à dele, a ponto de sua vontade tornar-se a minha; para o dom recíproco, devo tomar consciência de que ele deu sua vida por mim (cf. Jo 15,13; 10,15); em resposta, dou minha vida por ele, disposto a renunciar a mim mesmo e ir ao encontro dos outros. Isso também é destacado com palavras de nosso Papa: “Cristo me atrai a si para unir-se a mim, para que eu aprenda a amar os irmãos com o seu próprio amor” (Mensagem para a Quaresma, 2007).

 

 

16. “Como pode acontecer que a nossa maneira de pensar e as nossas ações se convertam no pensar e agir com Cristo e de Cristo? Qual é a alma da santidade? (...) O que é essencial? Essencial é não deixar jamais um domingo sem um encontro com Cristo Ressuscitado na Eucaristia; isso não é um fardo, mas a luz para toda a semana. Não começar nem terminar jamais um dia sem pelo menos um breve contato com Deus. E, no caminho de nossa vida, seguir os “sinais do caminho” que Deus nos indicou no Decálogo lido com Cristo, que é simplesmente a definição da caridade em determinadas situações. Penso que essa é a verdadeira simplicidade e a grandeza da vida de santidade: o encontro com o Ressuscitado no domingo; o contato com Deus no começo e no final do dia; o seguir, nas decisões, os “sinais do caminho” que Deus nos comunicou, que são apenas formas da caridade. Daí que a caridade para com Deus e para com o próximo devem ser o sinal distintivo de um verdadeiro discípulo de Cristo (cf. LG, 42). Essa é a verdadeira simplicidade, grandeza e profundidade da vida cristã, do ser santos” (Bento XVI, Audiência Geral, 13.04.11).

Autor:

Dom Murilo S.R. Krieger, scj -
Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil
COMENTÁRIOS (1)

Escrito por Alysson em 19/11/2011

Mais uma bela catequese...

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