FIRMES NA FÉ

 

1ª catequese: FIRMES NA FÉ

 

1.      Venho até vocês como catequista. A tarefa fundamental de uma catequese é apresentar Jesus Cristo, “o rosto humano de Deus, o rosto divino do homem”, segundo ensinou o Papa Bento XVI, na oração que proferiu em preparação à Conferência de Aparecida. Portanto, no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa: a Pessoa de Jesus de Nazaré, “Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade” (João Paulo II, CT 5). O Documento de Aparecida nos lembrará: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DA 18).

 

2.      Quem gostaria de estar aqui, para lhes dar esta catequese, é o Papa Bento XVI.   Para encontrar-se com jovens do mundo todo e lhes apresentar Jesus Cristo, centro da história da salvação, ele convocou a 26ª Jornada Mundial da Juventude; escolheu a cidade de Madri como sede dessa Jornada; apresentou o tema que iremos estudar ao longo destes dias: Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé (Cl 2,7) – e virá ao encontro de vocês amanhã. Quis ele, contudo, antes de seu encontro com vocês, que fossem ministrados três temas de catequese que, repito, ele próprio gostaria de lhes dar– mas de lhes dar como que falando com cada um de vocês. Lembro-me bem das palavras que ele pronunciou, quando iniciou seu pastoreio universal, em Roma, na manhã do dia 24 de abril de 2005: “Quem faz entrar Cristo [em sua vida], nada perde,absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nessa amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só nessa amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nessa amizade experimentamos o que é belo e o que liberta. Assim, gostaria, com grande força e convicção, partindo da experiência de uma longa vida pessoal, de vos dizer hoje, queridos jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira.”

 

 

3.      As palavras que Bento XVI escreveu no tópico inicial de sua Mensagem para esta 26ª Jornada são um eco dessas palavras de seis anos atrás: “Gostaria que todos os jovens, quer os que compartilham nossa fé em Jesus Cristo, quer todos os que hesitam, que estão na dúvida ou que não crêem nele, possam viver esta experiência que pode ser decisiva para a vida: a experiência do Senhor ressuscitado e vivo e do seu amor por todos nós”.

 

 

4.      Impossibilitado de se dirigir pessoalmente a cada um dos grupos de jovens reunidos pelas paróquias de Madri, o Papa Bento XVI, por meio do Cardeal Rylko, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, escolheu bispos catequistas para lhes falar. Venho de Salvador, da Bahia, primeira diocese do Brasil, para lhes testemunhar quanto é grande o amor do Papa por vocês; quanto ele deseja que a vida de vocês esteja enraizada em Cristo, isto é, que vocês tenham uma profunda relação pessoal com Jesus Cristo – enfim, que sua vida esteja enraizada na fé.

 

 

5.      Começo com uma constatação: o jovem de hoje é chamado a viver sua fé num mundo em que muitos não conhecem o Deus de Jesus Cristo. Nosso mundo experimenta o que o Papa Bento XVI chama de “eclipse do sentido de Deus” (Mensagem para a 26ª JMJ, Introdução). Busca-se eliminar Deus da vida pública e reduzir a fé a um conjunto de atos e comportamentos do mundo particular de cada um. A História nos tem ensinado que quando o ser humano perde o contato com a fonte de vida, que é Deus, perde também sua dignidade, sua identidade e até a alegria. O esquecimento de Deus é a origem de todos os problemas da sociedade. Diante dessa situação, só há uma solução: colocarnovamente Deus no centro da vida humana.

 

6.      Mas, o que significa, na prática, crer em Deus? Claro: refiro-me, aqui, ao Deus de Jesus Cristo. Crer em Deus significa ter fé. A fé, dom divino, graça que o próprio Deus nos dá para o conhecermos, é a adesão pessoal do ser humano a Deus. Pela fé, damos uma resposta à iniciativa de Deus que se revela a nós; pela fé entramos em comunhão com Deus, estabelecendo com Ele uma relação de confiança. Porque cremos em Deus, cremos nas verdades que Ele nos revelou. A fé oferece, pois, uma orientação fundamental à vida; ela tem, necessariamente, uma repercussão em nossa vida. Quando o apóstolo Tomé tocou nas chagas de Cristo e disse: Meu Senhor e meu Deus (Jo 20,28), expressou uma convicção que determinaria sempre mais o rumo de sua vida.

 

 

7.      A fé é um ato pessoal. Mas nossa fé nos liga a uma comunidade e é sustentada por ela. Posso dizer “Creio” porque, antes, a comunidade disse: “Cremos”. Essa é a fé da Igreja, professada pela assembléia litúrgica dos fiéis (cfr. CIC 166-167). “É antes de tudo a Igreja que crê e que dessa forma carrega, alimenta e sustenta minha fé.” Por isso, quando fomos batizados, o celebrante perguntou a nossos pais e padrinhos: “O que pedes à Igreja de Deus?” E a resposta foi: “A fé” (CIC 168). Cremos, pois, que Jesus Cristo não formou uma simples comunidade de discípulos, mas “constituiu a Igreja como mistério salvífico (Declaração Dominus Iesus 16). Há uma continuidade histórica entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica. Essa continuidade existe por causa da sucessão apostólica. A Igreja começou a se constituir quando alguns pescadores da Galileia encontraram Jesus, deixaram-se conquistar por seu olhar, por sua voz e por seu convite: Segui-me, eu farei de vós pescadores de homens (Mc 1,17; Mt 4,19 - cf. Bento XVI, Audiência Geral de 15.03.06). Por outro lado, podemos também dizer que a Igreja começou na Última Ceia porque Jesus se deu a si mesmo e criou, assim, uma nova comunidade, comunidade unida na comunhão com ele próprio. A história nos mostra que normalmente se chega a Jesus mediante a Igreja; daí a necessidade de nosso testemunho. Somos membros da comunidade que invoca o nome de Jesus (cf. Bento VI, Audiência Geral de 22.11.06).

 

 

8.      Crer em Deus é um ato humano razoável. Não há oposição entre fé e razão; ao contrário, essas duas realidades são, numa feliz expressão do Papa João Paulo II, “como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” (Carta Encíclica Fides et Ratio, Introdução). E nem poderia ser diferente: como Deus é o criador do mundo visível, não poderia haver mesmo oposição entre o conhecimento cientifico e o da fé (cf. CIC 155-159).

 

 

9.      O apóstolo Paulo estava preso em Cesareia ou em Roma quando, por volta do ano 60 dC, escreveu aos cristãos de Colossas, cidade na Ásia Menor – hoje Turquia. A intenção de sua carta era a de proteger a comunidade contra pessoas que desprezavam a simplicidade do evangelho de Cristo e o complicavam com especulações cósmicas e prescrições ascéticas. Portanto, ao lhes escrever: Assim como acolhestes o Cristo Jesus, o Senhor, assim continuai caminhando com ele. Continuai enraizados nele, edificados sobre ele, firmes na fé tal qual vos foi ensinada, transbordando em ação de graças (Cl 2,6-7), ele queria lhes dizer simplesmente isto: ponham sua fé somente em Cristo. Precisamos ter sempre presente que há três coisas que somente Ele pode nos dar: a remissão dos pecados, a ressurreição e a vida eterna.

 

10.  Firmes na fé! Nossa fé não se resume a um conjunto de verdades, mesmo que bem elaboradas. Nossa fé tem um rosto e um nome: o nome e o rosto de Jesus de Nazaré. Ou, para utilizar-me de palavras do apóstolo Pedro, em Pentecostes: Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem credenciado por Deus junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou entre vós por meio dele, como bem o sabeis. Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou!... (At 2,22-24a)

 

 

11.  Deus o ressuscitou! Falar da ressurreição de Cristo é falar do que é essencial em nossa fé. Festo foi procurador romano na Judeia, entre os anos 60 e 62. Um dia, recebeu a visita do rei Agripa e falou-lhe da situação de Paulo, que os judeus queriam que fosse condenado. Festo identificou Paulo como aquele que afirmava que um certo Jesus, que já morreu, está vivo (cf. At 25,13-19). Esse é o fato, esta é a notícia, a “boa nova” que os apóstolos proclamavam. Em outras palavras: Jesus de Nazaré, um homem que morreu na cruz aos olhos de todos, ressuscitou. Aqui está o núcleo central da primeira proposta cristã.

 

 

12.  Torna-se claro, pois, que o cristianismo se impôs não pela força de uma doutrina bem elaborada ou de uma experiência psicológica, mas por um fato: os apóstolos, testemunhas da ressurreição, puderam tocar o corpo de Cristo, como Tomé (cf. Jo 20,20- 29), comer peixe com ele (cf. Lc 24,41-42) e vê-lo ressuscitado (cf. Lc 24,39).

 

 

13.  Quase no final de seu Evangelho, São João esclarece: Jesus fez diante dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome (Jo 20,30-31). Jesus, o Filho de Deus, veio nos trazer a vida. A iniciativa desse dom foi do Pai: Deus amou tanto o mundo, que enviou o seu Filho único, para que todo o quenele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Cumprida sua missão, o Pai o ressuscitou, De fato, Deus ressuscitou este mesmo Jesus, e disso todos nós somos testemunhas. Exaltado pela direita de Deus, recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai e o derramou, como estais vendo e ouvindo (At 2,32-33). Na força do Espírito Santo, o plano de salvação do Pai, mistério escondido desde séculos e por inúmeras gerações (Col 1,26), foi explicitado por Jesus. Era preciso fazer discípulos no mundo todo, batizá-los, ensinando-os a observar tudo o que ele mesmo havia ensinado (cf. Mt 28,19- 20). Esta é a nossa missão. É desta maneira que nos tornaremos santos.

 

 

14.  Firmes na fé! Coloquemos, pois, como fundamento de nossa vida a certeza de que Ele ressuscitou! As consequências dessa atitude serão inevitáveis, pois se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado, à direita de Deus (Cl 3,1).

Autor:

Dom Murilo S.R. Krieger, scj - Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil
COMENTÁRIOS (2)

Escrito por Alysson em 17/11/2011

Firmes na fé! Coloquemos, pois, como fundamento de nossa vida a certeza de que Ele ressuscitou! As consequências dessa atitude serão inevitáveis, pois se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado, à direita de Deus (Cl 3,1). Palavras de nosso papa, de nossa Santa Igreja!!!

Escrito por Arley Humberto em 17/11/2011

Seja a fé o nosso sustento e alegria assim estaremos sempre firmes e prontos para a missão

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