Dia da Bíblia
Quando alguém se dispõe a ler um livro, a primeira atitude racional é se inteirar sobre o assunto em pauta, os objetivos e o valor cultural de seu autor. O tema abordado direciona o escritor, os fins dimensionam métodos e a capacidade intelectual de quem escreve é decisiva para que o conteúdo seja tratado com propriedade. Uma mesma matéria pode ser ventilada sob formas variadas, dependendo do canal de transmissão selecionado pelo comunicador. Assim, são diversos os elementos a serem observados para uma análise textual. Ora, se isto se aplica a qualquer obra com mais razão ainda à Bíblia.

Com efeito, os livros que compõem a Escritura Sagrada foram elaborados em várias épocas, por pessoas diferentes. Sua leitura requer o mínimo de informações preliminares. Para os que aceitam a revelação, seu autor principal é Deus que se manifesta aos homens. Cumpre observar que “este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexas entre si, de modo que as obras realizadas por Deus na História da Salvação ostentam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras”. A verdade divina chega por intermédio do homem e os muitos meios de comunicação de uma mensagem são utilizados.
Há partes históricas, proféticas, didáticas. É o recado do Onipotente que deve ser captado, meditado, aprofundado e vivido por aquele que tem fé. Por vezes, o hagiógrafo se expressa de forma simples, natural ou metafórica. Quem não vai além do recurso semântico ou da linguagem literária não pode pinçar o discurso do Criador. É, então, levado, ingenuamente, a comparar certos excertos bíblicos com a história da carochinha. É o que acontece com quem não tem fé. Outros , sem crença alguma, podem até se maravilhar com páginas encantadoras deste livro maravilhoso, mas sem tirar proveito espiritual.
Donoso Cortês tem uma belíssima página sobre a Bíblia e nela estes dizeres: “Livro prodigioso aquele no qual o gênero humano começou a ler, faz trinta e três séculos e, lendo nele todos os dias e todas as horas, ainda não acabou sua leitura. Livro prodigioso aquele que vê tudo e sabe tudo; que sabe os pensamentos que se levantam no coração do homem, e os que estão presentes na mente de Deus; que vê o que se passa nos abismos da terra; que conta ou prediz todas as catástrofes dos povos, todos os tesouros da justiça e todos os tesouros da vingança e onde se encerram e entesouram todas as maravilhas da misericórdia. Livro enfim, que quando a terra desmaiar e o sol recolher sua luz e as estrelas apagarem-se permanecerá ele apenas com Deus, porque é eterna sua palavra, ressoando eternamente nas alturas”. Este é, de fato, um texto peculiar. Tudo que se pode querer perscrutar sobre Deus e a criatura, nele se encontra. Eis porque nenhuma outra produção escrita é mais lida através dos tempos. É preciso, porém penetrá-la com o coração aberto e receptivo . O autor da Imitação de Cristo dá esta diretriz : “Se quereis tirar fruto (da Escritura), leia com humildade, simplicidade e fé”. Quem sente embaraço ante certas passagens do Antigo Testamento é porque quer enquadrar Deus nos seus moldes mesquinhos e não se dispõe a descobrir as insondáveis riquezas de um texto que tem ressonâncias divinas.
A temática apresentada pela Bíblia oferece, quer aos doutos, artistas, cientistas, quer às pessoas humildes e sem grandes conhecimentos, um manancial imenso para as mais extraordinárias elucubrações. A generosidade de Deus, a miséria do homem, o mistério do sofrimento, a vitória dos bons, a real condição dos prevaricadores, a esperança dos justos estão aí compendiados magistralmente. Nas páginas sacras sempre uma resposta a todas as indagações do ser que raciocina. Livro humano que patenteia os maiores heróis com seus altos e baixos, suas glórias e suas fraquezas. O que era, o que é, o que virá é descrito com sabedoria. Retém a fala do Criador que atravessa os séculos e permanece por toda a eternidade. Valiosa a norma da Dei Verbum : “Para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados, deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levadas em conta a Tradição viva da Igreja e a analogia da fé”. É que os diversos autores escolhidos pelo Espírito Santo foram inspirados. Isto quer dizer que “na redação dos livros sagrados Deus fez a escolha de homens dos quais se serviu fazendo-os usar próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse”. Donde se conclui que não há erro na Bíblia. Ela é a carta escrita pelo Pai a seus filhos aqui na terra. Felizes os que a compreendem e vivem em plenitude os seus sábios ensinamentos!
Fonte: CatolicaNet






