A descoberta do amor no sorriso e olhar

Mãe e Mulher: Dons Necessários
10 de maio de 2018

A descoberta do amor no sorriso e olhar

Na incessante busca de descobrir e experimentar o amor nesta jornada da vida, o Senhor me trouxe ao continente da esperança, a África. E, é aqui em Guiné Bissau, que há pouco mais de um ano, venho vivenciando o amor além fronteiras que me faz enxergar os outros como irmãos e decidir por amá-los, ainda que eu tenha que aprender outra língua.

A Guiné Bissau se localiza na costa ocidental da África, sua língua oficial é o português, porém, a maioria dos guineenses fala o crioulo (mistura das línguas nativas com o português), além das línguas étnicas daqui (existem mais de 30 etnias no país). A Comunidade Filhos de Maria juntamente com as comunidades Nova Berith e Kairós estão em comunhão missionária para a evangelização na cidade de Bissau, que é a capital do país.

Desde que cheguei aqui, o amor tem se manifestado de uma forma muito simples, nos pequenos detalhes do dia-a-dia, ele vem deixando sua marca em minha vida.

Certo dia, estava em casa fazendo o almoço, estava com pressa para terminar, pois tinha começado tarde, então bateram no portão. Pedi para alguém atender, para que não precisasse desligar as panelas que estavam no fogo para ir lá. O portão bateu novamente, uma das pessoas da casa atendeu e, chegou até a cozinha falando que era para mim. Abaixei o fogo das panelas, com o objetivo de não demorar muito no portão e fui apressada. Quando atendi, fui surpreendida por duas crianças que eu não conhecia (ou não me lembrava de conhecê-las). Perguntei para elas o que queriam, com o objetivo de dispensá-las logo para voltar com o almoço e, para minha surpresa, elas disseram com um pouco de esforço, pois não falavam muito o português, mas com muita ternura: ‘nós gostamos de você!’. Naquele momento fui quebrada por aquelas crianças, que me fizeram recordar do imenso amor de Deus. Um Deus que se faz pequeno e que vem ao meu encontro só para falar que gosta de mim e, que apesar de minhas pressas, Ele é paciente e cuida de todas as coisas. Fui contagiada pela pureza das crianças, e também respondi que gostava delas.

Na véspera do natal fizemos um momento de evangelização e brincadeiras com as crianças de nossa rua. Preparamos pipocas, suco, montamos um teatro sobre o nascimento de Jesus, ornamentamos com balões o local, enfim. Deixamos tudo organizado e chamamos as crianças.

Muitas crianças que chamamos com antecedência não apareceram, então resolvemos chamar as que estavam nas ruas do bairro, e assim foi feito. Pouco a pouco foram aparecendo, uns mais calados, outros mais agitados, uns arrumados, outros mais simples com roupas mais surradas e de chinelo. Todo o momento ocorreu conforme o previsto, o objetivo foi atingido. Foi tudo muito bom, nos divertimos, brincamos, rezamos. E em minha memória ficou marcada a cena de um menino que chegou maltrapilho, calado, sem saber muito do que se tratava, mas atento a tudo. Ele ficou um longo tempo observando os balões, seus olhos brilhavam. Ao final, olhava ele saindo muito alegre com seus amigos e levando os balões. Pouco tempo depois descobri que ele mora na rua de casa com mais dois primos que também participaram do momento. E desde então, eles passam todos os dias na frente da casa chamando-nos pelo nome. Quando atendemos o portão, a maioria das vezes, eles não falam nada, só abraçam e vão embora sorrindo.

E, assim como no dia que os conheci, venho fazendo uma experiência de amor. Um amor sem muitas palavras, mas com um sorriso verdadeiro, um abraço acolhedor e um olhar profundo, que olha além do externo, mas contempla a beleza do ser. E os seus nomes, são bem providentes: Jeremias, Sofonias e Habacuc. Grandes profetas de Deus. Também eu os chamo de profetas, pois são profetas para mim, profetas do amor.

Ao iniciar o ano, participamos da festa da comunidade Santa Mãe de Deus, que pertence a nossa paróquia Nossa Senhora da Ajuda. Logo que finalizou a missa da festa, uma menininha chamada Mira, na qual não conhecia, veio ao meu encontro e pediu colo, até então achei comum, porque muitas crianças aqui fazem isso. O que eu não esperava era que ela ficasse comigo a festa inteira e, que experimentaria da graça da maternidade com ela.

Com ela pude vivenciar um pouco das pequenas renúncias diárias que uma mãe faz por amor ao seu filho, quando dá de comer primeiro a ele e deixa para comer depois, quando todos ao redor já comeram e a comida já está mais fria; ou quando o filho quer algo que no momento a mãe não pode dar, como quando ela me pedia um objeto da ornamentação do local. Também experimentei da alegria de uma mãe ao ver o filho reproduzindo algo que ela ensinou, quando ela jogava o lixo na lixeira e não no chão; ou pedir para passear ao redor, para estar só com ela.

A cada nova experiência, nessa aventura de ser missionária, vou aprendendo a cada dia, sempre seguindo nas pegadas do Mestre, sobre a linguagem do amor. Às vezes fala, pede, mas muitas vezes permanece no silêncio de um olhar e na beleza de um sorriso.

Lays Santos, Missionária da Comunidade Filhos de Maria

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